A Anthropic assinou o seu primeiro acordo de centro de dados no Canadá. A criadora do Claude vai arrendar a fase inicial de um campus que a empresa de energia EverWind pretende construir no seu parque industrial de Point Tupper, na ilha de Cape Breton, Nova Escócia. A informação foi avançada pela Reuters, que citou um executivo da empresa, e confirmada num comunicado divulgado pela própria Anthropic ao fim do dia de sexta-feira, 16 de outubro.
De manhã, a EverWind apresentou o projeto sem identificar o inquilino, referindo apenas um arrendamento de longo prazo com um "importante criador de IA de fronteira". A Anthropic não esteve na cerimónia e só mais tarde assumiu a participação. Segundo a CBC News, a EverWind constrói e fica proprietária das instalações, enquanto a Anthropic ocupa a primeira fase durante pelo menos 20 anos. A empresa diz que o local vai alimentar os modelos Claude e responder à procura de clientes canadianos e de outros mercados.
Os valores pesam numa província desta dimensão. A EverWind fala em mais de 10 mil milhões de dólares: cerca de 8 mil milhões para desenvolver, construir, deter e financiar o campus e perto de 2 mil milhões para quatro parques eólicos terrestres da sua carteira, Bear Lake, Windy Ridge, Kmtnuk e Upper Afton. A primeira fase, de 95 megawatts, está prevista para o final de 2027; segue-se uma ampliação de 325 megawatts apontada para 2028, num total de 420 megawatts, sempre dependente de condições comerciais, técnicas e regulatórias. A CBC lembra que toda a capacidade de produção elétrica da Nova Escócia ronda os 3.000 megawatts.
A eletricidade é o ponto mais delicado. A EverWind garante que pagará todos os custos de ligação e de reforço da rede associados ao projeto, para que não recaiam sobre os consumidores atuais, e a CBC noticiou que as duas empresas se comprometeram a suportar as obras necessárias. O campus deverá ter várias centenas de megawatts-hora de baterias e reduzir o consumo da rede quando a estabilidade o exigir. Numa primeira fase, porém, a energia virá sobretudo da produção já existente na província, ficando os parques eólicos para mais tarde. O operador do sistema disse à CBC que analisa todas as novas ligações, sem esclarecer se há margem para esta.
A água é a outra questão sensível. Está previsto um circuito fechado de arrefecimento com mistura de água e glicol, com consumo estimado de cerca de 100.000 litros por dia na primeira fase e cerca de 500.000 litros por dia com o campus completo, aproximadamente 1% da captação diária autorizada no lago Landrie. Ainda segundo a CBC, a EverWind e a Anthropic aderiram aos princípios federais, não vinculativos, para centros de dados responsáveis, e um consórcio mi'kmaq liderado pela Membertou First Nation negoceia uma participação de nove por cento. A EverWind projeta cerca de 2.000 empregos na construção e 215 postos permanentes.
Para a Anthropic, o contrato acrescenta capacidade num país onde, segundo Jacob Glick, responsável pelas políticas públicas da empresa no Canadá, a utilização do Claude cresce depressa. A Reuters recorda que a empresa gastou 7,33 mil milhões de dólares em computação e infraestrutura no ano passado, o triplo de 2024, enquanto prepara uma possível entrada em bolsa.
Há várias pontas soltas. A segunda fase e o respetivo calendário dependem de licenças e de estudos do sistema elétrico, a ligação da ampliação à rede só avança depois disso e o fundo de benefícios para a comunidade ainda não tem montante anunciado. O Ecology Action Centre, organização ambiental local, disse à CBC que o projeto levanta mais perguntas do que respostas e pediu avaliações de impacto completas antes de qualquer avanço.