A Anthropic divulgou os resultados de uma experiência de descoberta de medicamentos com IA dirigida a um problema esquecido: as picadas de escorpião, que segundo a empresa atingem pelo menos 1,2 milhões de pessoas por ano e matam mais de 3250, sobretudo crianças em regiões com pouco acesso a cuidados de saúde. Num artigo de investigação datado de 20 de outubro de 2026, a empresa explica que um modelo interno do Claude concebeu minibinders, pequenas proteínas desenhadas para se agarrarem a um alvo concreto, contra neurotoxinas de escorpião, e que 17 desses desenhos resistiram aos testes laboratoriais.
O projeto nasceu de uma pergunta da Citrini Research, uma empresa de análise de investimentos: poderá a IA permitir que não especialistas motivados enfrentem um verdadeiro problema de saúde? A equipa de ciências da vida da Anthropic escolheu cinco toxinas de quatro regiões: Cn2, do México; Ts1, do Brasil; AaH I e AaH II, do Norte de África; e LqhIII, do Médio Oriente. O Claude selecionou as estruturas no Protein Data Bank e na base AlphaFold, definiu os pontos de ligação, fixou os seus próprios limiares de qualidade e decidiu como combinar 12 ferramentas de desenho de proteínas.
De acordo com a Anthropic, o modelo trabalhou de forma quase autónoma durante 64 horas no ambiente Claude Science, orientado por uma instrução inicial e quatro mensagens de seguimento. Gerou 318 484 proteínas candidatas, avaliou 553 052 pares de desenho e toxina através da previsão da estrutura conjunta e consumiu cerca de 10 000 horas de GPU. O Claude escolheu 180 desenhos e os investigadores acrescentaram outros 31 com a sua ajuda. As empresas Adaptyv Bio e Twist Bioscience produziram e testaram os 211 por ressonância plasmónica de superfície.
A fasquia era exigente: só contava um desenho em que ambos os laboratórios detetassem ligação em todas as repetições, com afinidade igual ou superior a 1 micromolar e sem aderência a uma proteína humana sem relação com o alvo. Passaram 17, cada um eficaz contra uma única toxina. Cerca de 18% dos desenhos dirigidos a uma só toxina tiveram êxito, taxa que a Anthropic considera habitual neste tipo de campanha. Nenhum dos 91 desenhos pensados para as cinco toxinas funcionou contra mais do que uma.
Os melhores resultados surgiram contra a Cn2. Dois candidatos, Cn2-B1 e Cn2-B2, mostraram afinidade na ordem dos poucos nanomolares nos dois laboratórios, e ensaios de competição indicam que se fixam perto do mesmo local que o LR, um anticorpo que terá neutralizado a Cn2 em ratinhos. Anticorpos e nanocorpos com afinidade abaixo de um nanomolar continuam a ser a referência.
A Anthropic é clara quanto aos limites. As proteínas só foram testadas contra versões das toxinas produzidas em laboratório, não contra veneno verdadeiro, e nenhuma foi ensaiada em células ou animais, pelo que a empresa não reivindica um antídoto. Dois cientistas externos, Susana Vázquez Torres, do CNIO espanhol, e Timothy P. Jenkins, da Universidade Técnica da Dinamarca, falam de um primeiro passo promissor, mas lembram que transformar estas proteínas em medicamentos seguros e baratos é a parte mais difícil. Todos os 211 desenhos e respetivos dados vão ser disponibilizados.