A Meta vai mexer na estrutura acionista para pagar a corrida à inteligência artificial. Na apresentação dos resultados do terceiro trimestre de 2026, a 21 de outubro, a empresa revelou que o conselho de administração aprovou uma nova categoria de ações ordinárias Classe C, cotadas em bolsa e sem direito de voto. Os novos títulos servirão para angariar capital, remunerar trabalhadores e financiar eventuais aquisições. No comunicado, a Meta sublinha que o investimento necessário para competir e alargar a infraestrutura em plena transformação provocada pela IA é avultado, e que a nova categoria a ajudará a sustentar esse crescimento.
O mecanismo assemelha-se a um desdobramento de ações. A Meta tenciona alterar os estatutos no estado do Delaware com efeitos a 19 de janeiro de 2027 e, depois, distribuir um dividendo único de uma ação Classe C por cada ação Classe A e Classe B em circulação, com datas de registo e de pagamento a definir. A empresa prevê que a cotação da Classe A se ajuste como se tivesse havido um desdobramento de dois por um, e garante que o poder de voto de nenhum acionista se altera. Uma comissão especial de administradores independentes recomendou a operação, os acionistas aprovaram a alteração estatutária por consentimento escrito e foi assinado com Mark Zuckerberg um acordo de alinhamento do fundador, que regula as vendas dos novos títulos e a sua continuidade na empresa. A Meta pretende cotar a Classe C no Nasdaq.
O trimestre ajuda a perceber a urgência do financiamento. As receitas subiram 26%, para 64,60 mil milhões de dólares, mas os custos aumentaram 68%, em parte devido a um encargo de 9,89 mil milhões ligado ao acordo com procuradores-gerais estaduais sobre processos relativos à saúde mental de adolescentes. O resultado operacional caiu 37%, para 12,99 mil milhões. O investimento em capital atingiu 34,91 mil milhões no trimestre e o fluxo de caixa livre ficou negativo em 2,12 mil milhões. A Meta estreitou a previsão de investimento para 2026 para um intervalo entre 135 e 145 mil milhões de dólares e indicou que continuará a investir de forma agressiva em IA no próximo ano.
O Muse, o agente de IA lançado pela Meta em setembro, dominou a conferência com analistas. Segundo o TechCrunch, Zuckerberg afirmou que o Muse tem mais de 10 milhões de utilizadores e que cerca de um quarto de quem o configura já o usa diariamente. As compras estão entre as utilizações mais populares: segundo Zuckerberg, mais de um quarto dos utilizadores ativos que compram através do Muse tem uma compra média superior a 200 dólares. Tarefas de correio eletrónico e agenda também são frequentes. O presidente executivo reconheceu que o agente é hoje caro de operar, mas disse esperar torná-lo mais de dez vezes mais eficiente em custos no espaço de um ano, mantendo-o gratuito para a maioria e cobrando uma parte do comércio realizado e um valor aos utilizadores mais intensivos.
Na declaração incluída no comunicado, Zuckerberg destacou como marcos o lançamento do Muse e do Muse Wonder, que a Meta apresenta como o seu primeiro modelo de fronteira. A imprensa tecnológica recorda, porém, que a estreia do Muse trouxe percalços, como a suspensão da partilha de conversas depois de investigadores terem encontrado diálogos expostos na internet.
Para uma empresa que gasta tanto em IA, a nova categoria de ações é um instrumento relevante. Títulos sem direito de voto permitem emitir capital para negócios ou remunerações sem diluir o controlo de Zuckerberg, argumento que a comissão especial apresentou como forma de preservar o modelo liderado pelo fundador. Os investidores vão agora acompanhar quanto capital Classe C a Meta emitirá de facto e se a adesão ao Muse se converte nas receitas prometidas.
Há pormenores por esclarecer. A Meta não revelou quanto capital pretende angariar com os novos títulos nem quando, e os números do Muse resultam de declarações da administração na conferência de resultados, não de dados auditados. Mais informação deverá constar de um formulário 8-K e de uma declaração informativa a entregar à SEC.