A Pathos AI, empresa nova-iorquina que recorre à IA para gerir o seu próprio portefólio de medicamentos, está a entrar nas neurociências acompanhada por dois nomes de peso da indústria. A 23 de outubro anunciou colaborações plurianuais com a Bristol Myers Squibb e a Tempus AI centradas na doença de Alzheimer e noutras patologias neurológicas, e revelou ter fechado uma ronda de Série E de 237 milhões de dólares, liderada pela BMS, com uma avaliação pós-investimento de perto de 3 mil milhões. A Reuters e a Fierce Biotech noticiaram os acordos.

O pacote assenta em três peças: dados, software e acesso. A Tempus vai reunir um conjunto longitudinal e anonimizado de dados de centenas de milhares de doentes neurológicos, que a Pathos licenciará durante cinco anos por 55 milhões de dólares. A comunicação que a Tempus enviou nesse dia ao regulador norte-americano detalha os números: compromete-se a envidar esforços comercialmente razoáveis para entregar 500 mil registos, ao ritmo de 100 mil por ano, a 100 dólares cada, mais 5 milhões pelas atualizações, e licencia ainda uma ferramenta de análise a que chama Tempus Agent. A Pathos pode sublicenciar ambos à BMS.

A BMS obtém acesso não exclusivo à plataforma Foundry em todo o seu portefólio de investigação e três anos de direitos exclusivos para a usar no desenvolvimento de terapias neurológicas. A Pathos explica que a Foundry servirá para explorar os dados em grande escala, formular e testar hipóteses sobre a biologia da doença e desenhar ensaios clínicos mais dirigidos e adaptativos. A empresa descreve a plataforma como um conjunto de milhares de agentes de IA especializados que agregam continuamente informação clínica, genómica e concorrencial para recomendar o passo seguinte de cada programa.

A comunicação ao regulador mostra que o negócio vai além da neurologia. Num contrato separado assinado a 14 de outubro, a BMS pagará à Tempus 137,5 milhões de dólares até 2031 por dados oncológicos, acesso ao software Lens e serviços associados, com autorização para usar esses dados dentro da Foundry. No total, a Tempus receberá 192,5 milhões em cerca de cinco anos. A empresa revelou também que as operações com a Pathos estão abrangidas pela sua política de transações com partes relacionadas, dada a sobreposição de gestão e de capital entre as duas, pelo que foram aprovadas por uma comissão de administradores independentes.

O financiamento da Série E destina-se sobretudo ao portefólio oncológico da Pathos, que conta agora quatro candidatos em fase clínica. A empresa destaca o JSKN016, um conjugado anticorpo-fármaco biespecífico TROP2/HER3 que pretende levar a estudos de registo, bem como o pocenbrodib, o AZD4241, um PROTAC do recetor de estrogénio desenvolvido com a AstraZeneca, e um inibidor de MET chamado DO-2. Segundo a Fierce Biotech, o acordo em neurologia é a primeira incursão da Pathos fora do cancro, depois de parcerias com a AstraZeneca e a Novo.

Para a BMS, a aposta encaixa numa estratégia mais ampla de IA no desenvolvimento clínico. A farmacêutica já tinha alargado em maio uma colaboração com a Tempus para o desenho de ensaios e tem em curso programas na doença de Alzheimer, incluindo testes do Cobenfy contra agitação e psicose e um anticorpo anti-tau em fase 2, recordou a Fierce.

Grande parte da lógica do negócio assenta em promessas ainda por demonstrar na neurologia. A Pathos afirma ter construído e validado o método em oncologia, ajustando ensaios em tempo real para melhorar as probabilidades estimadas de sucesso, mas não publicou resultados que provem que a Foundry aumenta as taxas de aprovação. Além disso, os dados neurológicos chegarão aos poucos ao longo de cinco anos, e a remuneração da Tempus depende do número de registos efetivamente entregues.

Referências