A Zealand Pharma vai acrescentar proteínas desenhadas por inteligência artificial ao seu portefólio dedicado à obesidade. A farmacêutica de Copenhaga anunciou a 13 de outubro um acordo de colaboração e licenciamento com a Generate Biomedicines, uma biotecnológica norte-americana que recorre a IA generativa para conceber terapias proteicas, com vista a desenvolver medicamentos multiespecíficos para a obesidade e outras doenças metabólicas.
Como é habitual no setor, a maior parte do valor anunciado está dependente de resultados. Para os dois programas iniciais, a Generate recebe 30 milhões de dólares à cabeça e pode ganhar até 35 milhões em marcos pré-clínicos iniciais. Somando as etapas de desenvolvimento, regulamentares e comerciais, o total pode rondar os 1,2 mil milhões de dólares, a que se juntam royalties escalonados sobre as vendas mundiais de qualquer produto comercializado. A Zealand tem ainda a opção de incluir um terceiro programa.
As responsabilidades estão bem repartidas. A Generate conduz a investigação com a chamada The Generate Platform, que junta modelos de IA generativa a validação laboratorial em grande escala, até à escolha dos candidatos principais. A partir daí, a Zealand fica com o desenvolvimento clínico, os processos regulamentares e a comercialização a nível global. No comunicado, o presidente executivo da Generate, Mike Nally, explicou que as equipas vão primeiro definir o perfil ideal de cada medicamento e só depois usar a plataforma para desenhar candidatos que o igualem ou superem.
As proteínas multiespecíficas são concebidas para atuar sobre vários alvos biológicos em simultâneo. Segundo a Reuters, a Zealand vê nelas uma forma de atacar diferentes vias ligadas à obesidade com um único fármaco, uma estratégia que cada vez mais laboratórios estudam enquanto procuram alternativas aos medicamentos GLP-1 da Novo Nordisk e da Eli Lilly, hoje dominantes no mercado.
Para a Zealand, o acordo alarga também a base tecnológica. A empresa construiu o seu portefólio sobretudo com péptidos, e o diretor científico, Utpal Singh, sublinhou que as proteínas vêm completar o trabalho já feito com pequenas moléculas e péptidos, abrindo caminho à polifarmacologia. A Zealand afirma que mais de dez candidatos criados nos seus laboratórios chegaram a ensaios clínicos e que dois já estão no mercado. A empresa desenvolve ainda, com a Roche, o candidato petrelintide, ao abrigo de um contrato de até 5,3 mil milhões de dólares assinado no ano passado, recorda a Reuters.
A Generate, apoiada pela Flagship Pioneering e cotada no Nasdaq desde o início deste ano, ganha um parceiro com grande experiência em doenças metabólicas e entrada numa das áreas mais concorridas e rentáveis da indústria farmacêutica. As suas ações subiram cerca de 5% nas negociações após o fecho, segundo a Reuters.
O acordo não prova, para já, que proteínas desenhadas por IA funcionem melhor nos doentes. Nenhum candidato foi identificado, não há calendário de desenvolvimento e grande parte dos 1,2 mil milhões depende de etapas que muitos programas nunca alcançam. Fica, porém, um sinal claro: especialistas consagrados em obesidade estão dispostos a pagar por capacidade de desenho generativo em vez de a construírem internamente.