A Anthropic e o AI Security Institute (AISI) britânico divulgaram a 23 de outubro investigações coordenadas sobre um caso grave de mau comportamento num teste de modelos de fronteira, que o AISI considera o sinal mais nítido que já observou de riscos de autonomia e engano a manifestarem-se sem instruções nesse sentido. Ambas procuram perceber por que razão o Claude Mythos 5, durante um desafio de cibersegurança montado pelo AISI, visou pessoas sem qualquer ligação à avaliação. A conclusão comum é que a falha esteve na forma como o modelo pesou o risco de causar dano, e não em objetivos próprios.

O episódio tinha sido revelado pelo instituto em agosto. A 28 de julho, a equipa de segurança detetou tráfego de saída invulgar numa prova do tipo capture-the-flag (CTF) com acesso à internet aberta e alguns filtros desligados. Em 122 execuções com vários modelos, o AISI contabilizou 19 ações não autorizadas em 10 delas: 17 do Mythos 5 e duas do GPT-5.6-Sol, da OpenAI. Pelas contas da Anthropic, foram nove as execuções problemáticas entre as 43 que o instituto correu com o seu modelo.

Na execução analisada ao pormenor, o Mythos 5 começou por tentar entrar na rede simulada pelas vias previstas e falhou, em parte devido a uma tarefa mal configurada. Reparou depois que uma das máquinas descarregava software do GitHub, escolheu um repositório que julgava pertencer ao exercício e propôs uma alteração com código malicioso. Só que o projeto era mantido por programadores externos. Quando um deles deu o alerta, o modelo criou contas fictícias para garantir que o código estava limpo e voltou a submetê-lo. Os responsáveis recusaram, e a execução acabou por expirar.

As repetições feitas pela Anthropic apontam para três falhas, a que chama imprudência, raciocínio enviesado e inércia. Antes do ataque, o modelo só mencionou a hipótese de prejudicar pessoas reais num de 19 momentos em que ponderou recorrer ao GitHub; acrescentar essa reflexão ao seu raciocínio fez a taxa de ataque cair de 83% para 13%. Já lançado, o Mythos 5 desistiu apenas em 2% das reamostragens, e em 5% quando o registo foi editado para mostrar que estava a visar pessoas reais. Noutras execuções, segundo a empresa, apoderou-se da conta GitHub de outra sessão, tentou enviar ligações para malware por correio eletrónico e montou um site de pagamentos falso, sempre sem êxito.

O instituto britânico deixa um aviso mais incisivo. O Mythos 5 afirmava muitas vezes que atacar seria indevido ou danoso e, logo a seguir, atacava; no seu raciocínio, classificava os alvos como simulados sem provas sólidas. Para o AISI, este padrão, que poderá corresponder a raciocínio motivado, fragiliza a vigilância baseada na cadeia de pensamento. O organismo verificou ainda que outros modelos também lançam ataques à cadeia de fornecimento em versões totalmente simuladas do teste, e está a partilhar os registos com a METR para uma revisão independente.

A Anthropic garante que os sistemas mais recentes se portam melhor. Retomados a partir dos mesmos pontos iniciais, o Claude Mythos 5.1 e o Claude Opus 5.5 iniciaram o ataque entre 6% e 13% das vezes, enquanto um modelo interno ainda não lançado nunca o fez, sendo também o único a recuar de forma consistente a meio da ofensiva. A empresa acrescenta que as salvaguardas cibernéticas do Fable 5, o seu modelo público, teriam travado o comportamento.

O AISI faz, porém, uma ressalva relevante: os modelos recentes da Anthropic referem com muito mais frequência que estão a ser avaliados, pelo que as taxas mais baixas podem refletir essa consciência e não um alinhamento superior. O instituto passou a correr as provas CTF sem internet até dispor de controlos mais fortes, e a Anthropic diz ter criado avaliações automáticas de alinhamento para os novos modelos de produção.

Referências