A Fundação Rockefeller e a OpenAI Foundation lançaram a 14 de outubro de 2026 um programa de subvenções de 50 milhões de dólares para ajudar as cidades a aplicar inteligência artificial nos serviços de que os moradores dependem. Batizado Cities Deliver: AI Solutions for Public Services, é um concurso aberto a nível mundial que financiará organizações em parceria com governos municipais, com montantes individuais entre 500 mil e 2 milhões de dólares. As fundações esperam que os projetos apoiados cheguem, no conjunto, a até 100 milhões de habitantes urbanos. A Reuters noticiou a parceria no mesmo dia.
Os critérios de elegibilidade são apertados. Podem candidatar-se entidades sem fins lucrativos, incluindo laboratórios universitários e grupos com patrocínio fiscal, ou sociedades de benefício público; empresas com fins lucrativos só em casos limitados e com projeto de cariz solidário. As câmaras não podem concorrer diretamente, mas todas as propostas precisam de um parceiro municipal comprometido. A IA de ponta tem de ser o núcleo da solução, e cada candidato escolhe livremente os modelos e produtos. As fundações garantem que não há exigência nem preferência por tecnologia da OpenAI.
O financiamento concentra-se em quatro áreas. A saúde pública abrange cuidados de proximidade, vigilância de doenças, serviços para pessoas com deficiência e nutrição. A mobilidade económica visa o acesso a prestações sociais, a orientação profissional e a contratação por competências. A resiliência ambiental inclui serviços de emergência, redes elétricas e gestão do território em zonas vulneráveis. A participação cívica cobre canais de atendimento bidirecionais, tribunais e licenciamentos. Ficam excluídos projetos ligados a votações ou eleições.
Segundo as perguntas frequentes do programa, há duas modalidades. As bolsas Seed, de 500 mil a menos de 1 milhão de dólares, pagam um primeiro piloto numa cidade. As bolsas Scale, de 1 a 2 milhões, destinam-se a soluções já testadas e com primeiros resultados que queiram crescer na mesma cidade ou chegar a outra. Todas duram 24 meses, com metade paga à cabeça e a outra metade após um marco intermédio documentado, sem garantia de novo apoio. Os beneficiários integram ainda um grupo com mentoria, apoio à avaliação e, quando houver disponibilidade, ajuda pontual de engenharia de IA. As dúvidas podem ser enviadas até 31 de outubro, a primeira fase fecha a 29 de novembro de 2026, as entrevistas decorrem em janeiro e as propostas finais têm prazo a 1 de março de 2027.
A iniciativa nasce de um encontro organizado em 2023 pela Fundação Rockefeller e pela OpenAI com mais de 40 responsáveis municipais de seis continentes. A Rockefeller financiou depois pilotos em três cidades e prevê reforçá-los: um sistema de alerta de cheias no Rio de Janeiro que avisa os moradores pelo WhatsApp, a ferramenta de previsão de surtos Dengue.AI, que passa de Cali para Cartagena, e uma plataforma de contacto com os cidadãos na Cidade do Cabo. O presidente da câmara de Cali, Alejandro Eder, afirma que o Dengue.AI antecipa surtos até três semanas, um resultado que não foi avaliado de forma independente.
A OpenAI Foundation é uma entidade sem fins lucrativos juridicamente separada da OpenAI PBC, e Anna Makanju dirige a sua área de sociedade civil e filantropia. Rajiv Shah, presidente da Fundação Rockefeller, apresentou o programa como forma de alargar a instituições de todo o mundo aquilo que resultou nas cidades-piloto. A gestão cabe à RF Catalytic Capital, entidade associada à Rockefeller. O anúncio não indica quanto dos 50 milhões vem de cada fundação.
Para as equipas tecnológicas municipais, o dinheiro responde a obstáculos que o próprio comunicado identifica: o custo de implementação e a incerteza sobre proteção de dados. Ficam por esclarecer quantos projetos serão financiados, como serão medidos os resultados para lá do plano de aprendizagem de cada beneficiário e se os serviços criados com dois anos de apoio filantrópico passarão depois para os orçamentos municipais. Os 100 milhões de habitantes são uma meta, não um resultado.