A Alemanha passou para o papel, com a NVIDIA, a sua ambição na IA industrial. Na segunda-feira, 19 de outubro de 2026, durante a primeira cimeira Invest in Germany, em Berlim, o Ministério Federal da Economia e Energia e o Ministério Federal da Investigação, Tecnologia e Espaço assinaram uma declaração conjunta de intenções com o fabricante de chips. O objetivo declarado é lançar uma iniciativa para desenvolver modelos avançados de IA física, ou seja, sistemas como robôs, máquinas autónomas e linhas de produção que percecionam o ambiente e atuam sobre ele, apoiando-se nos dados industriais, na experiência fabril e na engenharia alemãs.
A NVIDIA divulgou o acordo no seu blogue corporativo e o governo federal confirmou-o num comunicado citado pela tagesschau e pela AFP. Segundo esses relatos, a empresa vai alargar a colaboração com parceiros alemães para criar modelos abertos e especializados de IA industrial e vai pô-los ao alcance de pequenas e médias empresas e de instituições de investigação, e não apenas dos grandes grupos. O executivo resumiu a meta como levar a IA industrial a uma utilização generalizada e construir na Europa um ecossistema de ponta nesta área.
O instrumento escolhido é a já existente Plattform Industrie 4.0, a rede que junta representantes do Estado, da indústria, da investigação e das associações empresariais e que Berlim tem usado para coordenar a digitalização das fábricas. O Handelsblatt, que diz ter tido acesso ao documento, escreve que a declaração designa a plataforma como a rede central de estratégia e execução da IA industrial no país e prevê um grupo de trabalho com três áreas prioritárias. O jornal já tinha noticiado a 15 de outubro que a cooperação incidiria sobre IA física para treinar robôs e veículos autónomos e sobre modelos capazes de simular etapas de produção ou fábricas inteiras.
O financiamento continua por esclarecer. Segundo a tagesschau, o governo não apresentou números sobre a sua própria participação. A emissora cita uma notícia de outro meio segundo a qual Berlim pretende apoiar o projeto com várias centenas de milhões de euros, em parte para alugar capacidade de computação na nuvem de IA da Deutsche Telekom. Nem o governo nem a NVIDIA confirmaram esse valor.
A assinatura foi acompanhada de uma conversa pública entre o chanceler Friedrich Merz e o presidente executivo da NVIDIA, Jensen Huang, no Kraftwerk, uma antiga central elétrica de Berlim. Merz pediu ao Mittelstand, o tecido de fabricantes familiares e de média dimensão, que abra os seus dados à IA, e afirmou querer que a Alemanha fique entre os países mais avançados na difusão da tecnologia pelas empresas. Huang defendeu que a IA vai ampliar, e não substituir, o saber dos engenheiros alemães e, de acordo com a tagesschau, disse que a NVIDIA investiu quase mil milhões de dólares no país no ano passado.
Huang aproveitou ainda para anunciar investimentos previstos em quatro startups alemãs: a Agile Robots, de robótica, e a Avelios Medical, de software hospitalar, ambas de Munique; a Mirelo, que cria áudio com IA para vídeo; e a Reflex Aerospace, construtora de satélites sediada em Berlim. Os montantes não foram revelados e a NVIDIA enquadrou estas operações num compromisso de quase 10 mil milhões de dólares com empresas, universidades e centros de investigação europeus. No mesmo dia, a Siemens anunciou uma parceria com a NVIDIA para fábricas autónomas guiadas por IA; o grupo alemão afirma que, na unidade de Erlangen, o arranque de produção totalmente virtual reduz o esforço de engenharia até 85% e que o planeamento por agentes poupa até 20% nos custos, números da própria empresa que ninguém verificou de forma independente.
Uma declaração de intenções define um enquadramento político, não um plano de execução. Não foram divulgados nomes de modelos, datas de lançamento, licenças, volumes de computação nem orçamentos, e a agência dts sublinha que o impacto prático vai depender dos parceiros alemães envolvidos e da rapidez com que os modelos previstos se transformem em ferramentas utilizáveis. Para a indústria, a prova será ver se surgem de facto modelos abertos treinados com dados industriais alemães e em que condições as empresas mais pequenas os poderão adaptar às suas linhas de produção.