O mais recente trimestre da Alphabet expôs, lado a lado, as duas faces da aposta na inteligência artificial. O Google Cloud, por onde passa a maior parte da infraestrutura de IA que a empresa vende, mais do que duplicou as receitas, e a app Gemini ultrapassou mil milhões de utilizadores. Mas os resultados divulgados a 28 de outubro revelaram também lucros mais fracos, pesquisa a crescer menos e despesa elevada, e os investidores venderam no mercado fora de horas.

Sundar Pichai, presidente executivo da Google e da Alphabet, disse aos analistas que as receitas do grupo subiram 25% face ao ano anterior, o que corresponde, nas suas palavras, a um ritmo anual de meio bilião de dólares; o TechCrunch situa o trimestre nos 127,6 mil milhões. O Google Cloud faturou 30,7 mil milhões, mais 103%, quando os analistas esperavam cerca de 28,7 mil milhões, segundo a CNBC. Pichai atribuiu a maior parte desse salto à infraestrutura e às soluções de IA, falou de forte procura pelos sistemas TPU junto de clientes muito variados e admitiu que a empresa continua a correr para acrescentar capacidade.

Os indicadores de utilização foram o outro destaque. Segundo Pichai, as APIs dos modelos próprios da Google processam agora perto de 32 mil milhões de tokens por minuto, 40% acima do trimestre anterior e mais do quádruplo de há um ano. Classificou a app Gemini como o produto de crescimento mais rápido da história da empresa e afirmou que, na primeira semana nas plataformas de programadores, o Gemini 4 Argon ganhou utilização três vezes e meia mais depressa do que o Gemini 3, apesar das limitações de capacidade. O Gemini 4 Carbon, apresentado no mesmo dia para um grupo restrito de especialistas em ciberdefesa, foi descrito como superior ao Argon em quase todos os domínios. Trata-se de números da própria empresa, sem auditoria independente.

É na pesquisa que a pressão se nota. Pichai referiu que o volume total de consultas cresceu ao ritmo mais rápido dos últimos cinco anos e que as perguntas feitas no AI Mode são, em média, três vezes mais longas do que as pesquisas clássicas. As receitas contam outra história: a pesquisa cresceu 12%, para 63,35 mil milhões, abaixo dos cerca de 64,96 mil milhões previstos pelos analistas, segundo a CNBC, e o TechCrunch lembra que o crescimento tinha sido de 17% no segundo trimestre e de 19% no primeiro.

A resposta da Google passa por pôr mais publicidade dentro das respostas geradas por IA. Numa publicação à parte, a empresa indicou que está a alargar os anúncios no AI Mode à Austrália, Canadá, Índia, Quénia, Malásia, Nova Zelândia, Nigéria, Paquistão, Filipinas e Singapura, que conta juntar o Brasil, o México e o Reino Unido durante o quarto trimestre e que vai lançar nos EUA anúncios em várias etapas da conversa, para que também as perguntas de seguimento possam exibir publicidade, sempre assinalada como Sponsored. A Google garante que as taxas de clique dos produtos patrocinados e dos orgânicos no AI Mode já são semelhantes, afirmação assente em dados internos.

Os custos pesaram na reação. A CNBC indicou um lucro líquido de 26,17 mil milhões de dólares, ou 2,12 dólares por ação, contra 34,98 mil milhões um ano antes, e a primeira falha simultânea nas receitas e nos resultados em quase quatro anos. O fluxo de caixa livre ficou negativo em 9,07 mil milhões. O investimento em capital chegou aos 51,36 mil milhões, abaixo dos 55,09 mil milhões estimados, e a Alphabet manteve a previsão anual entre 195 e 205 mil milhões. A diretora financeira, Anat Ashkenazi, antecipou um aumento significativo da despesa em 2027, com pormenores na próxima apresentação de contas. A dívida de longo prazo subiu para 125,1 mil milhões, face a 21,6 mil milhões um ano antes, e as participações financeiras, que tinham gerado um ganho avultado no segundo trimestre, deram agora uma perda de 8,66 mil milhões.

As ações recuaram mais de 10% após o fecho, segundo a CNBC, enquanto o TechCrunch apontava uma descida de cerca de 8% no momento em que publicou o artigo. O trimestre deixa à Alphabet provas sólidas de que os clientes querem a sua capacidade de computação e os seus modelos de IA, mas também uma dúvida em aberto: a que velocidade a publicidade no AI Mode conseguirá compensar o abrandamento da pesquisa tradicional, numa altura em que o investimento não para de crescer.

Referências