A Cohere, empresa canadiana de inteligência artificial, assinou uma carta de intenções para comprar a AISLE, uma startup de cibersegurança que desenvolve sistemas autónomos capazes de descobrir e corrigir falhas ainda desconhecidas em software usado em produção. O anúncio foi feito por ambas a 15 de outubro de 2026. Nenhuma revelou o valor e, por se tratar de uma carta de intenções, o negócio ainda não está fechado: a AISLE promete mais pormenores à medida que a operação avançar.

Fundada em 2025, a AISLE saiu do modo discreto há cerca de um ano. A Reuters situa a empresa em São Francisco, com um polo de engenharia em Praga, mas a própria AISLE apresenta Praga como sede e diz que esse escritório passará a ser o da Cohere na capital checa quando a compra estiver concluída. O presidente executivo, Ondrej Vlcek, dirigiu anteriormente a Avast, fabricante checa de antivírus, e segundo a Reuters a equipa fundadora inclui também antigos profissionais da Google DeepMind e da Anthropic.

O argumento da startup assenta num historial verificável. De acordo com a AISLE e a Cohere, os seus sistemas estiveram na origem de mais de 500 vulnerabilidades com identificador CVE, distribuídas por mais de 100 bases de código, logo no primeiro ano. Dois projetos de código aberto muito utilizados destacam-se nesse balanço: a AISLE afirma ter encontrado as 12 falhas corrigidas na atualização de segurança de janeiro do OpenSSL e 18 dos 24 CVE tratados na versão mais recente do curl. Os totais são declarados pelas próprias empresas, mas a atribuição de cada CVE e a respetiva correção passam pelos responsáveis de cada projeto, o que deixa um rasto externo que um simples resultado em testes comparativos não ofereceria.

A operação foi pensada para manter a liderança da AISLE em funções dentro da Cohere. Vlcek deverá tornar-se vice-presidente sénior da Cohere Cyber, nova unidade dedicada a levar soluções de segurança aos clientes da empresa. A cofundadora Jaya Baloo assumirá o cargo de diretora global de segurança da informação da Cohere. Já Stanislav Fort, diretor de tecnologia e cientista-chefe da AISLE, passará a vice-presidente de segurança de IA e trabalhará com Ivan Zhang, cofundador e diretor de tecnologia da Cohere, para aproximar a investigação em segurança do desenvolvimento e do treino dos modelos.

Para a Cohere, a aquisição encaixa numa estratégia centrada naquilo a que chama IA soberana: modelos e agentes que governos e empresas de setores regulados podem executar em nuvem privada, nas suas próprias instalações ou em ambientes totalmente isolados da rede. A empresa vê na AISLE uma forma de juntar deteção de ameaças, maior proteção de dados sensíveis e supervisão mais apertada dos agentes de IA a essa oferta. Apresenta ainda o passo como parte de uma aposta mais ampla na Europa, depois da compra da Reliant AI e da aliança com a alemã Aleph Alpha, que a Reuters descreve como uma fusão avaliada, segundo notícias anteriores, em cerca de 20 mil milhões de dólares.

Há também uma motivação de investigação. As duas empresas defendem que um sistema de segurança e o modelo de base em que assenta se reforçam mutuamente: o software à volta decide como o modelo percorre grandes bases de código, descarta falsos alarmes e transforma descobertas em correções que os responsáveis pelos projetos aceitam, enquanto um modelo mais capaz alarga o que o conjunto consegue encontrar. A Cohere acredita que problemas de segurança difíceis, mas com resposta verificável, podem ajudar a avaliar e a melhorar futuros modelos.

O anúncio soma-se a um movimento mais vasto de pôr agentes de IA ao serviço da defesa informática. A AISLE garantiu aos clientes continuidade do serviço. Ficam por esclarecer o preço, a data prevista de conclusão e se as ferramentas da AISLE continuarão disponíveis de forma autónoma ou passarão a ser vendidas sobretudo através da plataforma da Cohere.

Referências