A OpenAI divulgou um relatório de ameaças sobre duas campanhas de influência encobertas que afastou do ChatGPT: uma operada a partir da Rússia e outra a partir do Irão. Em ambos os casos, os modelos da empresa serviram de apoio logístico a entidades de fachada, organizações e personagens com ar de independência que, na prática, faziam passar mensagens alinhadas com interesses estatais para meios de comunicação reais.

A rede russa, a que a OpenAI chamou "Dark Clark", geria na América Latina uma suposta plataforma de investigação, o Social Research Center, apresentada ao público por uma personagem fictícia, Mia Clark. Segundo o documento, os operadores escreviam sobretudo em russo, acediam ao serviço através de VPN e usavam a ferramenta principalmente para redigir relatórios internos destinados a um superior desconhecido. O objetivo era desgastar a imagem da Ucrânia na região e interferir na política interna, com destaque para a Argentina e a Bolívia. A empresa acredita que os colaboradores locais foram recrutados sem saberem que trabalhavam para um grupo russo e considera este o esquema de fachada mais elaborado que travou em dois anos e meio.

Parte do material reivindicado pelos operadores já tinha sido associado por investigadores externos à "Politology", também conhecida como "La Compania", descrita como herdeira da rede do Grupo Wagner. Um dos casos envolve um e-mail falso, atribuído à direção regional de educação de Lima, que incentivava escolas a organizar eventos em honra de Stepan Bandera; notícias sobre essas iniciativas acabaram por surgir na imprensa peruana e polaca. Outro diz respeito a um contrato forjado para sugerir que o governo do Equador ajudava a recrutar cidadãos para o exército ucraniano, alegação depois desmentida por verificadores de factos. Na escala IO Breakout Scale, que vai de 1 a 6, a OpenAI coloca esta operação na Categoria 5, uma classificação que nunca tinha atribuído desde que começou a publicar estes relatórios.

A rede iraniana, batizada "Bogus Bylines", trabalhava em persa e produzia textos em persa e inglês. Os operadores criaram sete identidades de jornalistas ocidentais para propor artigos longos sobre o conflito entre os Estados Unidos e o Irão a publicações de pequena e média dimensão. A OpenAI encontrou quase 100 artigos com essas assinaturas em mais de uma dúzia de títulos, entre julho de 2025 e outubro de 2026. Um dos sites tinha perto de 2 milhões de seguidores no Facebook. O grupo gerava ainda lotes de comentários nas redes sociais, com pouco eco; por isso, a empresa atribui Categoria 4 aos artigos e Categoria 2 aos comentários. Suspeita de um ator comercial que vende campanhas de influência, mas não conseguiu identificá-lo.

Há um traço comum curioso: ambos os grupos usaram a IA para inflacionar os próprios resultados. A equipa iraniana media o impacto pelas visualizações das publicações a que respondia, e não das suas respostas, enquanto os operadores russos reclamavam autoria de ações que não parecem ter realizado. A OpenAI diz ter partilhado informação com as autoridades competentes e com parceiros do setor.

Para redações e equipas de moderação, a lição é clara. Entre as 30 operações encobertas que a OpenAI afirma ter exposto desde o início de 2024, as que conseguiram colocar conteúdos em meios reais foram as que chegaram a mais gente. A IA não criou estas táticas, que lembram fachadas antigas como a falsa jornalista "Alice Donovan", mas tornou-as mais baratas e mais fáceis de afinar.

Convém lembrar que as conclusões resultam de uma investigação da própria OpenAI e que parte da avaliação de impacto assenta em pesquisas de fontes abertas que a empresa admite serem incompletas. A atribuição à Rússia e ao Irão reflete a localização e o comportamento dos operadores, não uma ligação comprovada a um organismo estatal concreto.

Referências