A Opera quer que as funcionalidades de IA das páginas web corram na máquina de quem as visita, e não num centro de dados alheio. A 27 de outubro, a fabricante norueguesa de browsers começou a distribuir o WebAI, uma interface através da qual sites e extensões podem recorrer a um modelo alojado localmente. Para já surge como pré-visualização opcional no Opera One, o browser principal da empresa; o Opera GX, pensado para jogadores, e o Opera Neon, centrado em agentes, deverão receber a novidade depois.
Os programadores ficam com três peças de base, a que a Opera chama Prompt, Decision e Semantic Embeddings APIs. No conjunto, servem para redigir texto, ordenar ou etiquetar conteúdos e medir a proximidade entre dois blocos de informação. Todo o processamento acontece no browser, pelo que não é preciso manter um servidor, distribuir uma chave de API nem pagar a um fornecedor de nuvem por cada pedido. Os exemplos dados pela Opera são modestos de propósito: uma extensão que arruma separadores acumulados, outra que assinala títulos caça-cliques e outra que identifica anúncios de emprego relevantes.
A solução não fica presa a um único modelo. Segundo a Opera, os utilizadores já podem contar com os modelos de pesos abertos Gemma, da Google, e, nos Mac com Apple silicon, com o modelo nativo da Apple que corre no dispositivo. A empresa descreve ainda o WebAI como uma proposta de padrão web apoiada por empresas como a Google e a Microsoft. Essa caracterização é da própria Opera: nos materiais consultados não havia qualquer declaração de nenhuma das duas empresas nem ligação a um rascunho de um organismo de normalização, e a notícia do TechCrunch também se apoiou na versão da Opera.
Cabe ao utilizador decidir se tudo isto funciona. Nenhum modelo é descarregado enquanto a opção não for ativada nas Definições, na secção Opera AI, onde um interruptor chamado Enable Web AI API vai buscar um modelo compatível. Depois, permissões atribuídas site a site determinam que páginas lhe podem aceder. Nesta fase, a pré-visualização abrange computadores Windows de 64 bits com processadores Intel ou AMD e Mac com Apple silicon, ficando de fora os Mac com Intel, o Linux e o Windows em Arm. As notas da versão 139, que passa o browser para o Chromium 155, incluem a funcionalidade entre as novidades.
O lançamento dá seguimento a uma experiência de 2024, quando a Opera abriu aos programadores o acesso a modelos locais numa versão de testes. A diferença está no alcance. A capacidade chega agora ao browser que o público em geral instala, e os programadores externos passam a ter um caminho suportado para a aproveitar, em vez de dependerem só das funções que a própria Opera disponibiliza. A empresa anuncia mais modelos abertos afinados para diferentes dispositivos e mais ferramentas para quem desenvolve.
A privacidade é o argumento central. Como o modelo está no próprio aparelho, o conteúdo das páginas tratado pelo WebAI não precisa de seguir para um serviço de IA na nuvem, e dispensa-se uma subscrição de IA à parte. A Digital Trends sublinhou que o passo das permissões por site ganha aqui um peso real, porque sites de terceiros, e não apenas a Opera, vão poder acionar o modelo no computador de quem os visita.
Os limites são sobretudo práticos. A rapidez e a qualidade das respostas dependem do equipamento do utilizador, e a Opera não divulgou requisitos de desempenho para além da lista de plataformas suportadas. Um modelo compacto a correr localmente também fica atrás dos grandes sistemas na nuvem em muitas tarefas. Para o WebAI se tornar um verdadeiro padrão comum a vários browsers, e não apenas uma função da Opera, outros fabricantes terão de o adotar, o que ainda não aconteceu. Em paralelo, a Opera lançou outra experiência, o HTML-in-Canvas, que coloca páginas web funcionais dentro de cenas 2D e 3D.