A estratégia de comprar empresas da velha economia e renová-las com inteligência artificial chegou à segurança doméstica. A ADT, maior fornecedora de alarmes monitorizados para casas e pequenos negócios nos Estados Unidos, anunciou a 29 de outubro um acordo definitivo para ser adquirida pela Thrive Holdings, com pagamento integral em dinheiro. Os acionistas receberão 10 dólares por ação, o que avalia o capital da ADT em cerca de 7,6 mil milhões e a empresa no seu todo, com dívida, em perto de 15,3 mil milhões.

O preço representa um prémio de 45,6% sobre o fecho não afetado de 6,87 dólares a 27 de outubro e de 52,1% sobre a média ponderada dos últimos 30 dias. A administração da ADT aprovou o acordo por unanimidade. O financiamento é assegurado na totalidade por fundos geridos por entidades ligadas à Apollo Global Management e o negócio não depende de condições de financiamento. A conclusão está prevista para o primeiro trimestre de 2027, sujeita a votação dos acionistas e à luz verde da concorrência norte-americana, após o que a ADT sairá da Bolsa de Nova Iorque. Uma cláusula de go-shop permite à ADT procurar propostas alternativas até 28 de novembro, com possível prolongamento de dez dias para alguns interessados.

A Thrive Holdings é o veículo de capital permanente criado a partir da sociedade de capital de risco de Josh Kushner, a Thrive Capital. Em vez de comprar e revender empresas ao ritmo de um fundo, fica com elas por tempo indeterminado e coloca engenheiros a trabalhar ao lado de especialistas de cada setor em software feito à medida. Diz já deter mais de 75 empresas em contabilidade, serviços de informática e construção, entre elas a Current, na contabilidade, e a Shield, nos serviços de TI. Segundo o TechCrunch, a OpenAI é parceira e investidora da Thrive Holdings, fornecendo modelos, tecnologia e engenheiros destacados junto das empresas do portefólio.

Nenhuma das partes detalhou produtos concretos de IA. No seu próprio anúncio, a Thrive Holdings fala de tecnologia capaz de reduzir alarmes falsos, dar mais informação às equipas de monitorização quando chega um alerta e detetar avarias nos equipamentos mais cedo. O presidente executivo da ADT, Jim DeVries, afirmou que o capital e o saber tecnológico da Thrive permitirão acelerar a inovação, enquanto Kareem Zaki, sócio da Thrive, falou em reforçar as capacidades tecnológicas e de produto da ADT ao longo de décadas. A ADT será o alicerce de um novo negócio de segurança para casas inteligentes dentro da Thrive.

O tratamento de dados é um ponto delicado para uma empresa com câmaras e sensores em milhões de lares. As duas partes garantem que as políticas de privacidade e proteção de dados da ADT se mantêm e que não haverá novas partilhas de dados sem autorização dos clientes. Essa garantia ganha peso se os engenheiros da Thrive, e as ferramentas da OpenAI que os apoiam, começarem a aplicar modelos a dados de alarmes e de monitorização.

O negócio é um teste em grande escala a uma tese defendida por vários investidores em IA: a forma mais rápida de tirar valor da IA em setores tradicionais é ser dono das empresas, e não vender-lhes software. Com 15,3 mil milhões de dólares, a ADT é muito maior do que as empresas de contabilidade e de informática reunidas até agora pela Thrive e traz consigo uma dívida pesada. O TechCrunch lembra que a segurança doméstica assistida por IA também atrai a Apple e a Amazon.

Por agora, a operação é um acordo financeiro com ambições tecnológicas associadas. A sua concretização depende dos acionistas, dos reguladores e do resultado do período de go-shop, e o alcance de qualquer aplicação de IA na ADT continua por definir.

Referências