A Anthropic decidiu estudar-se a si própria. A 16 de outubro, a empresa publicou dois relatórios ligados entre si: um sobre a forma como os agentes de IA mudaram o trabalho e as contratações dentro de portas, outro a comparar o que os seus funcionários e a população norte-americana esperam do impacto da IA no emprego e na economia. A empresa apresenta a sua equipa como um possível sinal antecipado de mudanças que poderão alastrar, embora reconheça que um laboratório de IA é um empregador atípico.
O relatório sobre emprego assenta em registos internos de efetivos, uso de IA, indicadores de produção, inquéritos a funcionários, atividade no Slack, agendas e decisões de recrutamento, completados por 17 entrevistas. A conclusão central diz respeito aos lugares de entrada. Desde o início de 2025, a fatia de júniores nos departamentos técnicos caiu de 21% para 14% e as contratações técnicas júnior passaram de 27% para 9% do total. Os departamentos técnicos recuaram de 61% para 56% dos efetivos no último ano, apesar de o recrutamento técnico continuar a crescer em números absolutos. A maioria das chefias inquiridas em abril afirmou que a IA mudou as competências que procuram.
A Anthropic associa esta viragem à expansão dos agentes. A telemetria das sessões mostra que, em março de 2026, as horas somadas de agentes autónomos e interativos ultrapassaram pela primeira vez as horas de trabalho humano. Contando apenas os agentes dirigidos por cada funcionário, em agosto já trabalhavam seis vezes mais horas do que as pessoas que os orientam. Os commits por engenheiro estão cerca de cinco vezes acima do nível de seis meses antes. Ao comparar 192 engenheiros que adotaram agentes de programação com 74 que não o fizeram, a empresa viu os primeiros acrescentar muito mais código e diz não ter encontrado diferenças na frequência com que linhas escritas por agentes ou por humanos foram depois apagadas ou revertidas. Vendedores fecharam negócios com mais clientes e juristas trataram mais contratos depois de recorrerem a agentes.
O relatório também regista o desgaste. Os agentes passam cerca de 80% do tempo das sessões interativas à espera de uma pessoa, e só ler o que produzem ocuparia mais de metade da semana de trabalho, mesmo em equipas não técnicas. O chamado metatrabalho, como redigir especificações para execuções com vários agentes ou montar painéis de monitorização, subiu de 10% para 22% das sessões entre o outono de 2025 e a primavera de 2026. O tempo mediano em reuniões aumentou 20%. As chefias de recrutamento referem hoje o uso de ferramentas de IA três a quatro vezes mais do que em 2024 e valorizam mais a autonomia e o discernimento do que a especialização estreita.
O segundo relatório compara um inquérito feito em agosto aos funcionários da Anthropic com uma amostra ponderada de cerca de 11 mil adultos norte-americanos, recolhida pela Morning Consult. Os dois grupos concordam, no essencial, sobre o que a IA faz hoje, mas divergem quanto ao ritmo do progresso. Até 2030, 91% dos funcionários acham que a IA será capaz de uma descoberta digna de Nobel, contra 39% dos adultos. Os funcionários esperam que a IA consiga fazer 75% do seu trabalho atual; os trabalhadores norte-americanos ficam pelos 28%, e apenas um em cada vinte prevê 80% ou mais. Consoante a tarefa, entre 19% e 40% dos adultos dizem que a IA nunca a conseguirá fazer, contra no máximo 2% dos funcionários.
Para a Anthropic, a diferença nasce mais da experiência do que de teorias distintas. Em ambos os grupos, quem espera que a IA assuma mais do seu próprio trabalho prevê mais desemprego e, para o mesmo grau de automação esperado, os dois grupos apontam taxas semelhantes. Os trabalhadores que esperam ver 80% ou mais das suas horas entregues à IA preveem uma taxa de desemprego de 12,2% em 2030.
As conclusões têm limites claros. Todos os dados laborais são da Anthropic, recolhidos e analisados pela própria empresa, sem revisão independente. A empresa admite que a adoção das ferramentas não foi aleatória, o que pode enviesar as estimativas de produtividade, e que a remuneração assente em ações, o crescimento acelerado e a cultura centrada na IA não se reproduzem na maioria das empresas. A Anthropic diz ter criado um sistema interno de alerta precoce para funções em risco e dar prioridade à recolocação interna, sem garantir que estas medidas funcionem noutros contextos.