Faltava um mapa de todo o céu em luz ultravioleta entre as vistas de referência que os astrónomos usam nas aulas, e agora existe um, construído em grande parte por agentes de IA. Brice Ménard, astrofísico da Universidade Johns Hopkins e investigador da Anthropic, relatou o projeto num texto publicado pela empresa a 8 de outubro. Diz ter orientado o Claude Science, a bancada de trabalho científica da Anthropic, enquanto uma equipa de agentes tratava da maior parte do trabalho com os dados.
A lacuna tinha uma explicação física. A camada de ozono absorve a radiação UV, pelo que só é possível observar o céu nesta banda a partir do espaço. A missão GALEX, da NASA, ativa entre 2003 e 2013, cobriu cerca de dois terços da abóbada celeste em perto de 38 000 observações, mas evitou zonas muito brilhantes, incluindo boa parte do plano da Via Láctea, para não danificar os detetores. Os dados do Swift (NASA), do FIMS/SPEAR (Coreia do Sul) e do satélite europeu TD-1 acrescentam cobertura, mas continuam a existir buracos. Preenchê-los à mão exige semanas de calibração píxel a píxel, um trabalho que, segundo Ménard, os investigadores vão sempre adiando.
De acordo com o relato, os agentes localizaram levantamentos UV públicos na internet, descarregaram-nos e tornaram cada um coerente internamente, eliminando por exemplo o brilho parasita em torno de estrelas intensas. Depois calibraram os levantamentos entre si, colocaram-nos na mesma resolução e no mesmo sistema de coordenadas e fundiram-nos. Para o terço do céu sem dados UV, o sistema recorreu ao inpainting, uma técnica de aprendizagem automática que reconstitui partes em falta de uma imagem, conjugada com a relação aprendida entre o brilho UV e as observações no visível, no infravermelho e em rádio. Uma última camada junta estimativas UV para mais de 100 milhões de estrelas, deduzidas das medições em luz visível do satélite Gaia, da ESA.
Ménard descreve um teste de exatidão simples: esconderam-se partes de regiões já observadas e pediu-se ao modelo que as reconstruísse. Após várias rondas de afinação, as estimativas ficaram a cerca de 10% dos valores medidos. O mapa publicado inclui camadas que indicam, para cada píxel, se o valor é medido ou previsto, bem como estimativas de incerteza.
Nem tudo correu bem à primeira. Ménard reparou em padrões circulares ténues nos campos mais escuros, a marca de cada apontamento do GALEX, causada por um resto de brilho atmosférico. O Claude tinha assinalado esse risco logo no início e, mesmo assim, o mapa passara duas revisões feitas por outros agentes. Depois do alerta do investigador, os agentes corrigiram o efeito nas 38 000 observações em poucas horas de processamento. Ao longo de vários dias, foram produzidas mais de uma dúzia de versões.
O resultado é apresentado sobretudo como recurso pedagógico: mostra poeira iluminada por estrelas jovens, anéis desenhados por bolhas de explosões estelares, filamentos ténues longe do plano galáctico e as Nuvens de Magalhães. O interesse mais amplo está em servir de exemplo concreto de agentes a assumir o trabalho de base, pesado em calibração, para o qual os cientistas raramente têm tempo.
Convém, porém, alguma prudência. O relato é de um investigador ligado à Anthropic, publicado no site da própria empresa, não é um artigo revisto por pares, e cerca de um terço do mapa resulta de previsão e não de medição. Falta ainda verificar até que ponto as zonas estimadas resistem a futuras observações em ultravioleta.