A Microsoft desistiu do centro de dados de IA que deveria dar ao Reino Unido o seu maior supercomputador. Segundo o Telegraph, que avançou a notícia no domingo, 18 de outubro de 2026, a empresa norte-americana pôs fim recentemente ao contrato com a Nscale para o campus previsto em Loughton, no Essex. O Guardian confirmou, por fontes próprias, que a Microsoft comunicou à Nscale a saída, o que deixa a fornecedora britânica de infraestrutura sem o único cliente anunciado publicamente para aquele local.
O projeto tinha um peso político invulgar. Quando a Nscale e a Microsoft o apresentaram, em setembro de 2025, no meio de uma vaga de investimento tecnológico norte-americano no país, a Nscale prometeu 50 MW de capacidade de IA, expansíveis até 90 MW, e uma primeira instalação de 23 040 GPU NVIDIA GB300, a entregar no primeiro trimestre de 2027 para servir os clientes do Azure em todo o território. Satya Nadella falou então no maior supercomputador britânico, e o governo de Keir Starmer já tinha destacado o local, na estratégia de IA de 2025, como o maior centro de dados de IA soberana do Reino Unido.
O problema de fundo é a eletricidade. O Telegraph escreve que o projeto acumulou atrasos sucessivos e que os responsáveis pela rede avisaram a Nscale de que não contavam fornecer energia ao local antes da década de 2030. A informação vai ao encontro do que o Guardian noticiara em setembro: a UK Power Networks terá indicado que só haveria capacidade suficiente entre o início e meados da próxima década. Uma ligação de 90 MW equivale ao consumo de cerca de 315 mil casas, e a Ofgem revelou em junho que 315 centros de dados aguardavam ligação, somando 73 GW de procura, quando o pico nacional ronda os 45 GW.
A Microsoft não explicou publicamente a decisão. A Reuters, que reproduziu a notícia do Telegraph, referiu que o jornal não indicou o motivo da saída e que a empresa não respondeu de imediato a um pedido de comentário fora do horário de expediente. Já o Guardian atribui a retirada às preocupações com o abastecimento elétrico e diz saber que a Microsoft continua envolvida noutro projeto da Nscale, na Noruega.
A resposta da Nscale não desmente a notícia. Um porta-voz afirmou que a relação com a Microsoft continua sólida e de longo prazo, classificou o revés como um problema da rede de toda a região de Londres, sem impacto nos restantes contratos, e disse que a empresa estuda fontes de energia alternativas para Loughton, bem como outros locais de expansão no Reino Unido. Em setembro, o Guardian noticiou que a Nscale estava também a avaliar a produção de energia no próprio local e formas de acelerar a ligação.
O momento não podia ser pior para a Nscale. A Reuters lembra que a empresa, apoiada pela Nvidia, pediu no mês passado a entrada em bolsa nos Estados Unidos, com a Microsoft e a Anthropic apontadas no prospeto como grandes clientes, e estima o valor total contratado da empresa em mais de 103 mil milhões de dólares, contra 100 milhões há cerca de dois anos e meio. O Guardian considera que a perda do cliente principal em Loughton pode pesar numa operação de que se fala com uma avaliação próxima dos 35 mil milhões de dólares. A Nscale concorre com fornecedores de nuvem especializados como a CoreWeave, a Nebius, a Crusoe e a Lambda.
O caso ilustra bem como, no Reino Unido, o acesso à rede elétrica, mais do que os chips ou o capital, passou a ser o verdadeiro travão da infraestrutura de IA. Mostra também a rapidez com que grandes compromissos anunciados se desfazem quando os prazos de energia derrapam vários anos. Ficam perguntas por responder: se a Microsoft vai transferir a capacidade prevista para outro local ou fornecedor, se a Nscale consegue um novo inquilino ou energia própria para Loughton e como o prospeto da oferta pública refletirá a mudança. Nenhuma das empresas divulgou os termos financeiros do acordo rescindido.