A NVIDIA vai entrar no capital de um cliente de peso. Num comunicado datado de 26 de outubro, a fabricante de chips revelou que vai investir 3 mil milhões de dólares na emissão de ações agora lançada pela Meta e aprofundar a colaboração em torno do Muse, o agente pessoal e a família de modelos que estão no centro da estratégia de IA de consumo da dona do Facebook. No mesmo dia, a Meta apresentou um plano de venda de ações que pode render até 95 mil milhões de dólares para financiar infraestrutura de IA.
Na vertente técnica, as duas empresas falam de um esforço conjunto para afinar as cargas de trabalho do Muse, tanto na inferência como no treino, com o objetivo declarado de ganhar desempenho e baixar o custo total de propriedade. A Meta pretende pôr em funcionamento mais hardware da NVIDIA para a próxima geração de agentes, incluindo sistemas Vera Rubin e CPUs Vera, a par da rede Ethernet Spectrum-X e das unidades de processamento de dados BlueField-4. As empresas admitem ainda avançar com trabalho adicional sobre a NVIDIA OpenShell Reference Architecture, que junta o OpenShell, pensado para implementar agentes com mais segurança, ao NVIDIA Sentry, que vigia o comportamento desses agentes. Esta parte é apresentada como uma hipótese em estudo e não como um compromisso assinado.
Os pormenores do lado da Meta constam do comunicado aos investidores. A empresa lançou duas ofertas tomadas firme em simultâneo, num total de cerca de 35 mil milhões de dólares: perto de 22,5 mil milhões em ações ordinárias de Classe A, vendidas através de contratos de venda a prazo com a Morgan Stanley e a Goldman Sachs, e cerca de 12,5 mil milhões em certificados de depósito ligados a novas ações preferenciais convertíveis obrigatórias de Série A, cuja conversão está prevista para por volta de 15 de agosto de 2029. Segue-se um programa de venda direta no mercado de cerca de 60 mil milhões em ações de Classe C, a categoria sem direito de voto anunciada na semana anterior, que só deverá começar depois de esses títulos serem negociados. A Meta não espera avançar antes do primeiro trimestre de 2027 e diz que montante, calendário e condições ainda não estão definidos.
Os dois comunicados não descrevem o papel da NVIDIA exatamente da mesma forma. A NVIDIA afirma sem rodeios que vai investir 3 mil milhões. Já a Meta coloca a NVIDIA ao lado da AMD e da Broadcom como investidores de referência que manifestaram, cada um por si, interesse em comprar em conjunto até 5 mil milhões de dólares em ações de Classe A, nas mesmas condições dos restantes compradores. A Meta sublinha que essas manifestações não são vinculativas, pelo que as alocações finais podem ficar acima, abaixo ou mesmo em zero.
O dinheiro destina-se a sustentar um programa de despesa invulgarmente pesado. A Meta conta agora gastar entre 135 e 145 mil milhões de dólares em investimento de capital em 2026 e diz estar a construir quatro superclusters com mais de um gigawatt cada, ao mesmo tempo que quase duplica a capacidade total de infraestrutura este ano. Nos três primeiros trimestres gerou cerca de 97 mil milhões em fluxo de caixa operacional e terminou setembro com aproximadamente 82 mil milhões em liquidez e títulos negociáveis. A empresa destaca também a adesão ao Muse: mais de 10 milhões de utilizadores nos Estados Unidos e no Canadá nas primeiras semanas, com as compras a liderar a atividade semanal.
Segundo a CNBC, as ações da Meta recuaram cerca de 1,6% no arranque da sessão. A cobertura lembrou que, na apresentação de resultados da semana anterior, os investidores se tinham concentrado no fluxo de caixa livre negativo e na subida da previsão de despesa. A estação enquadrou a operação noutras grandes rondas de financiamento ligadas à IA este ano, como o financiamento de GPUs da SpaceX e a preparação da entrada em bolsa da Anthropic.
No mercado de hardware para IA, o acordo aperta um circuito que já era estreito: um grande fornecedor de chips injeta dinheiro num cliente que se compromete a comprar mais sistemas seus. Há várias pontas soltas. Os documentos consultados não indicavam ainda o preço das ofertas, as compras dos investidores de referência são intenções e não contratos, e o trabalho sobre OpenShell e Sentry continua em fase exploratória. Os números de utilização e desempenho do Muse vêm da Meta e da NVIDIA e não foram medidos de forma independente.