A OpenAI apresentou a 26 de outubro um conjunto de afirmações científicas sem paralelo na indústria de inteligência artificial. Numa publicação no seu site, a empresa garante que os seus modelos internos produziram três resultados perseguidos há décadas: a refutação da Hipótese do Tempo Exponencial, conhecida pela sigla ETH, em ciência da computação teórica; uma prova da conjetura de suavização local de Christopher Sogge para qualquer dimensão; e uma demonstração rigorosa de que existem, em quatro dimensões, teorias quânticas de campos que incluem a cromodinâmica quântica (QCD). Em simultâneo, mudou a forma de divulgar este tipo de trabalho, convidando investigadores de renome a liderar grupos externos que vão analisar e explicar os resultados.

É na informática que o alcance pode ser maior. A ETH, formulada por Russell Impagliazzo, Ramamohan Paturi e Francis Zane, sustenta que problemas de satisfatibilidade como o 3-SAT não admitem solução em tempo subexponencial. Centenas de resultados condicionais de dificuldade, em teoria dos grafos, biologia computacional, bases de dados e geometria computacional, assentam nessa premissa. O manuscrito da OpenAI, datado de 25 de outubro no repositório público openai/math, descreve um algoritmo determinístico que conta exatamente as atribuições que satisfazem uma fórmula CNF de largura fixa em tempo subexponencial e com memória polinomial. Aplicado ao 3-SAT, derrubaria a hipótese. A empresa diz que o modelo encontrou a refutação a 16 de outubro e que a formalização em Lean ficou concluída no dia seguinte.

A verificação cabe a Impagliazzo e Paturi, ambos da UC San Diego, e a Ryan Williams, do MIT, que já tinha refutado versões mais fortes da conjetura. Numa carta aberta citada pelo The Next Web, os três sublinham que a sua participação não equivale a dar o resultado como certo e que uma afirmação deste calibre exige escrutínio cuidadoso de terceiros. Williams indicou que o grupo não assinou acordos de confidencialidade nem recebe pagamento. A pedido dos investigadores, a OpenAI aceitou divulgar todos os dados em bruto e financiar uma conferência sobre as implicações para a área. A própria empresa admite que transformar o resultado em algoritmos práticos mais rápidos exigirá muito trabalho adicional.

Na matemática, a questão é a forma como as ondas se concentram. A conjetura de Sogge, de 1991, diz que a focagem extrema só pode durar pouco tempo. Larry Guth, Hong Wang e Ruixiang Zhang resolveram o caso bidimensional em 2019, e Wang e Joshua Zahl provaram a conjetura de Kakeya em três dimensões em 2025, trabalho que valeu a Wang uma Medalha Fields, recorda o The Verge. A OpenAI afirma que a sua prova vale para todas as dimensões, recorre a uma nova equação diferencial parcial auxiliar e resolve, por arrastamento, as conjeturas de Kakeya e de restrição de Stein em geral. O resumo do repositório, citado pelo The Verge, é mais prudente e fala das estimativas de restrição esférica de Stein no interior do intervalo conjeturado. Este resultado foi divulgado sem grupo de acompanhamento, tal como os 722 artigos de matemática publicados a 6 de outubro.

O resultado de física é o mais difícil de escrutinar. A OpenAI diz que os modelos construíram de forma rigorosa teorias interativas em quatro dimensões com campos de gauge e fermiões, incluindo a QCD e a extensão unificada mais simples do Modelo Padrão, com base no método construtivo de Tadeusz Balaban. Um dos passos prova a existência da teoria de Yang-Mills pura, que corresponde a uma parte de um dos Problemas do Milénio do Clay Mathematics Institute. O Nobel David Gross lidera o grupo responsável, com Michael Douglas, Arthur Jaffe, Igor Klebanov e Nikita Nekrasov, que decidiu não divulgar por agora o material gerado pela IA e preparar o seu próprio texto. Segundo a empresa, as provas datam de 9 e 18 de setembro e a formalização de Yang-Mills terminou a 16 de outubro.

A OpenAI assenta estas colaborações em quatro compromissos: transparência sobre a sua existência, nenhum crédito académico reclamado pela empresa, reconhecimento para as explicações produzidas pelos grupos e independência dos participantes. Lembra ainda a doação anterior de 5 milhões de dólares à Simons Foundation para workshops sobre resultados produzidos por IA. A empresa reconhece que escolher os primeiros responsáveis condiciona quem entra primeiro no processo. O The Verge noticiou que o AGMAI, um painel de conselheiros de matemática reunido pela própria OpenAI, tinha recomendado na véspera que os laboratórios evitassem dar acesso antecipado a pessoas selecionadas, apontando desigualdade de acesso, reputação emprestada e seleção enviesada.

Nenhum dos três resultados tinha confirmação independente no momento do anúncio, e o material de física continua inacessível a quem está fora do grupo de Gross. Se a refutação da ETH resistir à revisão, um vasto conjunto de limites inferiores condicionais da informática ficará sem base.

Referências